Michely Ciardulo
Solidão e Conexão Social

A solidão não é simples estado emocional nem fenômeno superficial. É um sinal de que as conexões sociais — que estruturam a vida psíquica — estão fragilizadas ou insuficientes. Embora vivamos em um mundo intensamente conectado digitalmente, muitas pessoas relatam sensação de isolamento profundo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, entre 17% e 21% de indivíduos entre 13 e 29 anos relatam sentir-se sozinhos, com taxas especialmente altas na adolescência. Em países de baixa renda, essa proporção chega a 24%, mais que o dobro das taxas em países de alta renda, em torno de 11%. Esses números mostram que a solidão não é uma experiência isolada, mas um fenômeno de grande escala que afeta tanto jovens quanto adultos em contextos diversos.

A solidão pode emergir mesmo quando há conexão digital ou presença física de outras pessoas. Ela não se limita ao estado de estar só. É uma experiência de ausência de vínculo significativo, de falta de respostas e reconhecimento nos laços sociais.

Estima-se que o isolamento social, que é distinto da solidão — pois envolve ausência de contato social significativo — atinge até 1 em cada 3 idosos e 1 em cada 4 adolescentes. Alguns grupos enfrentam barreiras adicionais à conexão social, como pessoas com deficiência, migrantes, LGBTQ+, povos indígenas e minorias étnicas.

As causas da solidão e do isolamento social são múltiplas e interligadas. Elas incluem problemas de saúde, baixa renda, escolaridade limitada, morar sozinho, infraestrutura comunitária inadequada e políticas públicas insuficientes. A tecnologia digital, quando utilizada sem mediação, também pode intensificar o sentimento de desconexão, especialmente entre jovens que passam grande parte do tempo em interações virtuais que não substituem o vínculo humano.

A solidão não afeta apenas o campo emocional. Tem impacto na saúde física e mental. Pessoas solitárias apresentam maior risco de desenvolver depressão e ansiedade. A solidão também está associada a maiores taxas de doenças cardiovasculares, diabetes, declínio cognitivo e até risco aumentado de morte prematura. Adolescentes que se sentem sozinhos tendem a ter pior desempenho escolar, e adultos podem enfrentar dificuldades maiores para ingressar ou manter empregos e podem ganhar menos ao longo do tempo.

Esses efeitos não se limitam ao indivíduo. A solidão enfraquece a coesão social, compromete a resiliência comunitária e impõe custos econômicos elevados, tanto em perda de produtividade quanto em gastos com saúde.

O relatório da OMS sobre conexão social propõe que a solução para a solidão não está apenas no nível individual, mas também no coletivo: políticas públicas que fortaleçam infraestrutura comunitária, educação que valorize vínculos, espaços sociais que promovam encontros, além de intervenções que reduzam estigmas e promovam conexões verdadeiras.

A solidão, portanto, não é apenas experiência subjetiva. Ela é um fenômeno social e psíquico que toca o sentido de pertencimento, reconhecimento e vínculo. Na clínica, isso se manifesta como sofrimento que não pode ser separado do contexto cultural e relacional no qual o sujeito está inserido.

Reconhecer a solidão como experiência humana intensa e, ao mesmo tempo, como fenômeno de saúde pública abre espaço para uma compreensão mais ampla e ética do sofrimento emocional.

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